Diário do Farol

Eu imagino que alguns de vocês já tenham se questionado o que é a “moral” e mais do que isso, tenho certeza absoluta que cada um tem a sua própria. Além disso, acredito também que nós nos reprimimos muitos de nossos desejos e vontades, gostos e atitudes. Coisas que queríamos fazer, mas que um paradigma qualquer não permite. Mas e se houvesse uma pessoa que não reprimisse seus anseios e tivesse uma moral tão sórdida e pervertida? Bem, é por esse ponto de vista que iremos ler “Diário do Farol”, uma obra perfeita, em minha opinião, e que acaba com certas opiniões provenientes de algumas pessoas.

A obra aqui apresentada foi escrita por João Ubaldo Ribeiro, um grande escritor, professor e advogado brasileiro, ilustríssimo membro da ABL (Academia Brasileira de Letras). Teve algumas de suas obras adaptadas para a televisão e para o cinema; dentre seus mais famosos escritos podemos destacar “Sargento Getúlio” e “Viva o Povo Brasileiro”, sendo que este último foi “adaptado”, posteriormente, para um samba-enredo da escola de samba Império da Tijuca, no carnaval de 87. João Ubaldo também é detentor de um Prêmio Camões, a maior premiação para autores de língua portuguesa.

Sinopse:

“Diário do farol é o relato autoral de um clérigo amoral e inescrupuloso, que no outono da sua existência resolve inventariar seu rosário de maldades, perpetradas com requintes extremos desde a infância no seminário – de início, sob o pretexto de vingar os maus-tratos do pai; posteriormente, ainda mais sofisticadas, devido ao desprezo de uma mulher.
Auto exilado numa ilha onde pontifica um farol, o bilioso e mesquinho padre dialoga com o leitor para provocá-lo com uma realidade na qual não há bem ou mal, e assim tentar demovê-lo de qualquer noção redentora. Conseguirá? Para ele, não há transcendência, o Universo nos é indiferente e a todos foi negada essa Revelação. Não por acaso, o farol de sua ilha chama-se Lúcifer, “aquele que detém a Luz”.


O leitor é advertido desde a epígrafe: “Não se deve confiar em ninguém”. A vida real é feita de rupturas, exceto para aquela maioria dos homens que perde a oportunidade de viver de fato por nunca romper com nada realmente importante, adverte-se. Num testemunho insidioso, que concilia situações hilariantes com outras de horror repulsivo e escatológico, somente o cinismo impera. Nisso, põe-se o padre a fazer troça dos ´católicos que acreditam nas besteiras do catolicismo´ e a manipular todos, fiéis ou descrentes, para atingir seus fins amorais, chegando à sofisticação de submeter-se voluntariamente a sessões de tortura para dar vazão a seus caprichos vingativos.
Um mal que – posto em tom neutro como só é possível por meio de uma arte superior como a literatura – nos permeia a todos e nos leva a refletir sobre nossa condição social e humana. Um mal na sua essência, que nada tem de panfletário e denunciador, que encontra solo fértil na sociedade e no sistema político atuais.”

“Diário do Farol” vem quebrar preconceitos e expor a nojenta e terrível natureza do ser humano. Como o próprio título já sugere, o livro é uma espécie de diário que é escrito por um padre faroleiro. Na trama, acompanharemos a vida do clérigo desde a sua infância até os seus dias finais. O protagonista da trama não se nomeia em momento algum, de modo que ficamos meio que “no escuro” (Que ironia…).

A história inicia-se na infância do padre, e nos é mostrado como ele foi tratado pelo pai após a morte da mãe. Ele tratava-o muito mal e o xingava constantemente, segundo o Seminarista (como eu libertamente o nomeei), e a partir destes tratamentos e de uma suposta presença espiritual da mãe, o garoto decide-se por matar o pai para vingar-se de todos os maus tratos sofridos. Mas não apenas vingar-se, fazê-lo sofrer de todas as formas possíveis e uma dessas formas, era entrar no seminário.

No seminário ele nos mostra todas as coisas sórdidas e possíveis de acontecer. Sexo entre os seminaristas e os próprios padres professores, orgias, ardis e tudo isso sendo ele o pivô dos acontecimentos, não aquele que mais pratica, mas sim aquele que sabe de tudo, todavia, é claro que ele não é isento de tais acontecimentos, ele também participava algumas vezes; E esse saber não é desperdiçado. Aquele que não fazia o que o Seminarista queria sofria consequências, afinal, ele era tipo um Gossip Boy do seminário. Uma coisa que vale a pena ressaltar é que o pai dele o chamava de cínico, sarcástico, irônico, sonso… E tudo isso é verdade.

Após a época do seminário, o protagonista volta à sua cidade natal e começa a servir em sua igreja, como auxiliar do pároco local, o que irá servir de palco para mais sexo e traições. Também há uma parte que entra a época da ditadura militar, coisa que o Seminarista participa ainda como delator e torturador.

Pra mim, este é um dos melhores livros que eu já li/irei ler na minha vida. A forma como tudo é passado é extremamente fascinante. Eu, que tenho a maioria das opiniões que ele ressaltou em seu diário, tive orgasmos de concordância. Porque era como se eu tivesse escrito aquilo ali, claro, sem as maldades e conotações sexuais. Mas é uma coisa que eu sempre falei, principalmente sobre a moralidade. Visto que eu acredito que não existe moral. É uma coisa tão relativa e ao mesmo tempo tão singular que ninguém pode atestar tê-la ou não, é completamente variável e subversiva.

Logo no início do livro somos advertidos a não confiar em ninguém, o que é um conselho muito sábio, até mesmo para não confiar no autor do diário. Não piamente. Porque vemos tudo sob uma ótica exclusivamente dele, não sabemos se os fatos realmente aconteceram como nos é narrado. Que garantia temos que o espírito da mãe dele realmente retornou com sede de vingança? Tal espírito não poderia ser nada mais, nada menos, do que um meio que uma mente doentia e maníaca achou como forma de tentar justificar seus atos? Ah sim, uma coisa que me ocorreu e que eu devo alertar-lhes, é que este não é um livro pra qualquer um. Se você tem demasiado pudor e “princípios” não leia o livro, te deixará horrorizado.

As críticas que estão escritas nas entrelinhas, ou melhor, que estão escritas nas linhas, pois está tudo absolutamente claro, ou ele quer que pensemos assim, são maravilhosas e realmente tocantes. Talvez por tudo apresentar-se de maneira tão real e suscetível a acontecer, tudo tenha ficado do jeito que ficou. E podem me chamar de idiota, besta, do que quiserem, porém até hoje eu não sei se os fatos que se sucederam são verídicos ou não. Achei que a composição do diário, com informações sendo ocultas de nós, apenas serviu para apetecer a nossa voracidade com relação à leitura do livro.

PS: Existe também uma peça de teatro baseada neste romance.

Eu recomendo muito mesmo este livro, é PERFEITO!

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