A Menina do Casarão

SINOPSE: Após a perda de sua mãe, Wesley e seu pai mudam-se para um novo bairro. Tudo parece normal em seu primeiro dia, até que sonhos estranhos o incomodam. Uma menina aparece para ele pedindo sua ajuda. Irá Wesley ajudar uma desconhecida? 

Capítulo I

O novo sempre causa medo. Era isso que minha mãe diria se estivesse aqui conosco, mas isso não é possível, não porque ela viajou, ou me abandonou desde criança, pelo contrário, minha mãe nunca me abandonaria. Ela está morta. Hoje está fazendo um ano e para “comemorar” meu pai resolveu realizar o seu  próprio desejo. Se mudar para um casarão. Você deve está se perguntando qual tipo de marido faria comemoração da morte da esposa, pois é, esse é meu pai, o Honório. Ele tem uma forma estranha de demonstrar seus sentimentos, mas não o culpo, ele sempre foi apegado à minha mãe, na verdade é. E deve ser difícil perder quem amamos. 

— Wesley, me ajude aqui. — Ouço meu pai chamando e saio do banheiro para saber do que se trata.

Meu pai está na sala segurando duas caixas cheias de bugigangas.  Ele sorri com os olhos ao me ver e faz sinal com a cabeça para que o acompanhe. Corro e pego uma das caixas. Meu pai não está tão velho quanto sua aparência mostra, seu rosto está mais magro do que o normal, sua barba enorme por fazer e seu cheiro de cigarro contamina qualquer lugar em que ele esteja. 

— Está cheiroso, hein garoto. — Ele sorri e continua subindo as escadas da casa.

A casa não é muito velha por dentro quanto aparenta por fora. Inicialmente eu fiz “charme” — como as garotas dizem — para que a gente não se mudasse, mas de nada adiantou. Ele já queria morar em um casarão desde quando minha mãe era viva, mas como ela tinha a palavra final dentro de casa, meu pai sempre concordava em ficar, mesmo resmungando quando ela virava as costas. Me pego sorrindo com as lembranças.

— Está rindo do quê? — Ele me olha estranho. Com certeza deve achar que estou ficando maluco.

— Nada demais. Só lembranças.

— Da sua mãe? — Sua voz sai baixa.

Ele coloca a caixa na porta de um dos quartos e abre a porta.

Essa casa é cheia de quartos no andar de cima, o que para mim é ótimo. Quando viemos conhecer o casarão e descobri os milhares de quartos que a casa tinha, liguei de imediato para Douglas informando que em breve teríamos uma festa. 

— Também. — tento ser o mais monossilábico possível.

Entro no quarto que possivelmente será o dele. O sol entra pelas duas janelas imensas. O ambiente está muito sujo e repleto de teias de aranhas.

— Há quanto tempo esse lugar não vê uma vassoura?

Ele sorri quase dando uma gargalhada.

É muito bom ver meu velho dessa forma.

— Não sei, mas de uma coisa eu tenho certeza, você vai me ajudar a dar um jeito nessa bagunça.

Suspiro. Sabia que iria sobrar pra mim.

— Não venha que não tem. Daqui a pouco estou indo para escola. Não posso ficar sem estudar. Isso é muito importante para meu futuro.

Ele abre uma das janelas e sinto o calor do sol em meu rosto. O dia está esplêndido e de verdade não posso perder meu primeiro dia de aula. Não que eu ligue para essas frescuras. Aulas são sempre aulas, tanto do primeiro  quanto do último dia. E meu pai sabe o motivo de eu querer ir logo para escola. 

— Você quer estudar ou conhecer as gatinhas?

Eu não disse? Esse é meu pai. Tive a quem puxar. O velho garanhão da Petrik, sua cidade natal. 

— Ah… Você realmente me conhece.

Ele abre os braços, eu não queria abraçá-lo. Ficarei com um cheiro miserável de cigarro. Bem… Tem garotas que gostam de caras que fumam. Aproximo-me rapidamente dele e o abraço. Seu cheiro é insuportável. Ele bagunça meu cabeço, fico irritado e me afasto.

— Fala sério, meu velho. Você bagunçou todo meu cabelo.

Balanço a cabeça indignado enquanto tento ajeitar meu cabelo.

— Esse cabelo de mariquinha.

Me seguro para não dizer algo indevido. Não estou com meus amigos.

—  É ai que você se engana. — Falo enquanto termino de ajeitar  o cabelo. — Aqui é o corte César, referindo-se ao estilo do imperador romano. 

— Mariquinha. — ele solta uma gargalhada alta — Mas ainda assim é meu filho.
Ele me segura pelo rosto e olha em meus olhos.

— Seus olhos — sinto sua voz falhar — me lembram muito a sua mãe.
Fecho os olhos e abro novamente.

— Não, não parece — tento não envolver minha mãe no assunto — meus olhos são idênticos ao de minha avó Judith. Eles são violeta.

Minha mãe sempre dizia que meus olhos eram uma mistura que deixava um tom de violeta. Quando eu tinha aproximadamente seis anos, lembro que ela pensou que eu era um tipo de aberração. Mas ai minha avó explicou todo processo de pigmento melanina e blá, blá, blá. Aquele assunto de escola. E por incrível que pareça minha avó também tem os olhos violeta. 

“Há muitas variações de azuis e cinzas, com outras nuances entre elas. Violeta pode ter sido a pigmentação típica dela”, disse o oftalmologista pé no saco à primeira vez que apareci por lá.

Porém minha avó disse a ele que tudo não passava de palavras, pois, nós dois tínhamos os olhos iguais aos da… É… Elizabeth Taylor.

Me afastei de meu pai e ajeitei o cinto da calça. Ele me deu as costas enquanto arrumava alguns objetos espalhados no canto do quarto.

— Pai — ele se virou abruptamente — preciso ir. Estou atrasado. 

O que eu realmente queria dizer era: Pai estou indo, me empresta o carro?  

Ele me estudou por um minuto que pareceu uma eternidade, mexeu no bolso. Uma esperança cresceu dentro de mim, mas ele tirou dinheiro e me passou.

— Essa semana você vai de ônibus. Não quero você se exibindo por ai, além do mais, você não conhece essa vizinhança.

Peguei o dinheiro.

— Vizinhança essa que você fez tanta questão de morar.

Ele levantou a mão e saí correndo. Desci as escadas, me olhei no espelho. Estou um gato. Corrigi olhando para meu reflexo. Eu sou um gato. Fui até a sala, peguei minha mochila no sofá, coloquei o dinheiro no bolso e saí para escola.

(Para ler o capítulo 2, clique aqui.).

POR: DIEGO SOUSA.
  1. Eu adorei esse conto, parabéns Diego!
    Bjs

    • Débora DÂmaris Maneo Lima
    • 23 outubro, 2012

    Adorei!!!Quero le-lo e que minha filha também leia. E gostoso, agradável mesmo a leitura a conversa…

  1. 28 outubro, 2012
  2. 4 novembro, 2012
  3. 11 novembro, 2012
  4. 19 novembro, 2012

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: