A Menina do Casarão – Capítulo 3

(Para ler o capítulo 1, clique aqui.).

Acordei ofegante e suando frio — uma queda brusca, uma sensação estranha que se estendia por todo meu corpo. Estava tremendo. Apesar de estar suando, o frio da noite é intenso. Puxo as cobertas e cubro meus ombros, sentindo meu coração batendo rapidamente. A janela estava aberta. Por que minha janela estava aberta? Minha cabeça estava latejando. Preciso de um copo d’água. Levantei um pouco tonto, caminhei e acendi a luz. Será que foi efeito de toda bebida? Acho que não. Eu cheguei em casa lúcido e puto da vida por não ter conseguido ficar com Fernanda. Mas esse momento não é adequado para falar disso. Olho-me no espelho e noto um hematoma no pescoço. Não foi efeito da festa de forma alguma. Voltei para cama e sentei. O sonho foi reaparecendo em minha cabeça.

Eu não consegui ver seu rosto, apenas ouvi a sua voz sussurrando algo que não consegui decifrar. Seriam fantasmas? Não. De forma alguma. Eu não leio para ficar com a imaginação tão fértil a ponto de imaginar que fantasmas estavam tentando me avisar alguma coisa. Mas essa marca no meu pescoço é completamente louca. Quando chegar na aula vou perguntar a Júnior o que realmente aconteceu. Será que ele me drogou? Puta merda. Será que ele estava afim de mim, me drogou e… Não, nunca. Ele parece ser um cara tão gente boa. Não faria uma coisa dessas e se fizesse, eu acabaria com a raça dele. Ah, se acabaria. Talvez fosse algum mosquito que picou, ou cocei a noite. São tantas suposições.

— Wesley — Meu velho pergunta enquanto abre a porta do quarto. — Que diabo está fazendo acordado há essa hora?

Eu olho para meu relógio digital que marca 04h55min.

 — Um sonho estranho — eu digo, tentando parecer normal. E porque não estava normal? Desde quando eu me importava com um simples sonho incomum.

Ele entra e encosta a porta.

— Isso que dar chegar tarde e beber no seu primeiro dia de aula.

Bufei.

Se fosse assim, todas as vezes que eu chegava em casa travado da casa de Douglas eu deveria ter sonhos estranhos, mas não tinha.

— Acho que não.

Ele sentou ao meu lado na cama, olhei para ele, seus olhos castanhos escuros estavam cheio de preocupação. Sua fisionomia cansada e abatida.

— Você deveria estar descansando.

— Não estou com sono. Ele me fitava e eu estava ficando completamente sem graça. Meu pai era a única pessoa, depois de minha mãe que me deixava completamente sem graça.

— Te digo o mesmo.

Ele apertou os olhos.

— Moleque se orienta.

Abaixo a cabeça de vergonha.

— Desculpa.

Ele levanta da cama.

— Trate de descansar que amanhã você vai me ajudar a organizar toda essa bagunça.

Revirei os olhos.

— E a escola?

— Hoje é feriado.

Estava confuso.

— Feriado? De quê?

— Dia dos mortos.

Engoli a saliva e senti meu corpo tremer. Meu pai saiu do quarto e voltei a dormir, pelo menos tentei. Fiquei olhando para o teto velho do quarto. A única forma de pegar no sono é contando carneiros.

Ouvi uma batida forte na porta do meu quarto. Levantei assustado.

— Pai? Meu velho?

Levantei da cama. Notei que não estava mais tonto. Fui até a porta e abri, não tinha ninguém. Engoli a saliva. Voltei para cama e notei que a janela estava aberta. Fechei e me joguei na cama. Coloquei os braços atrás da cabeça e uma perna em cima da coxa. Fiquei pensando e pensando até ouvir uma voz.

— Wesley

A voz era serena.

Eu sentei em minha cama.

— Quem é?

— Margaret

O que há de errado comigo?

— Que diabos é Margaret?

Silêncio. Um longo silêncio.

Aquele silêncio me irritou. Dei um longo suspiro, me levantei e me encaminhei até a porta. Ela estava trancada, mas nesse instante estava aberta. Parecia loucura.

— Podemos conversar? Perguntou a voz.

Frio na barriga. Como vou conversar com alguém que não vejo?

— Conversar o quê?

Senti a brisa da noite em meu rosto. Arrepiei.

A luz da lua era a única coisa que iluminava o quarto.

— Não tenha medo e não se assuste.

Após suas palavras, eu vi algo aparecendo no canto do quarto. A imagem de uma menina. De início fiquei um pouco receoso. Mas, logo quando notei, fiquei calmo.

— Você é um fantasma?

— Não, tecnicamente.

— Como assim? Minha mente estava um pouco lenta.

— Estou morta e preciso do descanso eterno.

— Mas… — minha voz falhou — você deveria estar descansando.

Ela apareceu na luz. Senti um choque no meu corpo após ver aquela imagem deprimente. Ela tinha o cabelo louro com mechas rosa nas pontas, algumas tranças em parte do cabelo, mas isso não era o pior. Seu rosto. Senti algo embrulhar em meu estômago. E não estou de “frescura”. Seus pálidos olhos verdes e um sorriso na boca que apesar de deformada encantaria qualquer menino, não, menino não, fantasma. Ela possivelmente deveria ter minha idade, talvez dezessete ou dezoito no máximo, com uns centímetros a mais que eu. Ela dava um passo e parava até que eu pude ver por completo o seu rosto. Parte dele estava completamente queimado. O pior tipo de queimadura que eu já vi. A parte queimada estava funda, como se algo tivesse caído. Um pedaço de pau em chamas, ou sabe-se lá o quê. Pensei em perguntar, mas não queria constrangê-la. Fantasmas ficam constrangidos? Perguntei-me.

— Estou há tempos esperando por alguém que abrisse a porta pra mim.

Vestida com um camisão branco que tinha um desenho estranho. Fique analisando por um tempo e percebi que era um triângulo dentro de um circulo e dentro desse triângulo tinha um olho. Sinistro.

— Alguém assim, tipo eu?

Ela assentiu e abriu um sorriso que apesar da queimadura era lindo.

— Alguém que pudesse me ouvir, ver e sentir.

Sentir? O que ela estava pretendendo? Um sexo fantasmagórico?

Sacudi a cabeça ao pensar nisso.

— Não isso que você está pensando.

Caralho! Ela pode ler minha mente.

— Tecnicamente sim. Antes de eu… — ela hesitou, mas concluiu — morrer. Eu era diferente.

Mordi o lábio inferior.

— Diferente, tipo, com poderes?

Ela esboçou um rápido sorriso.

— Isso.

Cocei a cabeça.

— Foi por isso que… —Parei.

— Não. Eu não sou uma bruxa e não fui queimada na fogueira.

O ar ficou preso na minha garganta.

— Antes de você morar aqui, outras pessoas já moraram, mas nenhuma delas abriu a porta pra mim. Eu preciso descansar em paz. Minha missão já foi finalizada.

Nada disse.

— A única coisa que quero — disse com a voz fraca, distante como o vento — é que você ache o meu colar.

— Qual colar? Sussurrei.

— O colar da minha linhagem.

— Linhagem? Então você quer dizer que existem mais iguais a você?

Eu balancei minha cabeça e senti como se estivesse me afastando.

— Por favor, resista, não vá agora.

A cada segundo me sentia distante dela até que acordei.

(Para ler o capítulo 4, clique aqui.).

POR: DIEGO SOUSA.
    • Esta emocionante, vc escreve bem, tem estilo. E seu primeiro livro?
    • 5 novembro, 2012

    Estamos querendo mais…queremos saber inde esta o colar…

    • Diego
    • 6 novembro, 2012

    Ah, não… É apenas conto de 5 capítulos até então. Meu primeiro livro está em andamento. Que bom que gostou. (:

  1. 4 novembro, 2012

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