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Desculpas pelo atraso, pensamentos sobre o aborto e uma primavera a mais

Olá, boa terça (ou qualquer dia da semana que você ler isso), e, antes de mais nada, peço desculpas pelo atraso. Esses dias eu tive que cuidar de uns trabalhos (que ainda não terminei), fiz aniversário no sábado e fiquei completamente sem ideias. Tais coisas acontecem, espero evitar que ocorra novamente, mas hoje venho sanar esse atraso e, finalmente, falar de um assunto que me vem batendo na cabeça há meses, mas que pensei com mais seriedade nesses dias. Se você for uma pessoa inteligente e ter lido o título já deve adivinhar o que é- afinal, as desculpas e a notícia da primavera a mais já foi entregue.

Apenas devo fazer uma objeção quanto ao que coloquei no título, o pensamento não é quanto ao aborto, mas sim quanto a legalização. Há diferenças, e estas são muito claras- ser a favor da descriminalização é procurar apoiar a liberdade duma pessoa como seu corpo e a vontade de gerar ou não um feto (que pode, ou não, se transformar num humano). É um assunto delicado e que, infelizmente, acaba caindo em barreiras pessoais, porém, quando se fala em legislação, tais barreiras devem ser quebradas- falando de maneira bem direta, eu, como indivíduo, não permitiria que uma mulher abortasse um feto concebido comigo; metade do material genético dele pertence a mim, não queria que ela evitasse a gestação, mesmo que a total obrigação de cuidar dele após o nascimento fosse minha; porém isso é um pensamento pessoal, o fato de eu não aceitar que alguém aborte um feto gerado a partir de um espermatozoide meu não me habilita a proibir que o próximo o faça. É uma mera questão de (sim, vou ter que apelar para a palavra) democracia; o próximo tem o direito de fazer o que quiser com o seu corpo, desde que não afete a mim- pelo mesmo motivo o consumo de drogas ilícitas não é considerado crime, porém a venda das mesmas é considerado crime.

E, não, antes que alguém me venha falar, não é aborto com “condições”, como em caso de estupro. Por pior que o crime seja, sustenta uma proibição ao aborto em casos normais enquanto legalizar esse é ser hipócrita. Se defende a vida do feto concebido em relação consensual por “apoiar a vida do feto”, porém, aquele feto concebido por um estupro teria menos valor do quê o outro? Estaria um feto, segundo este pensamento, pagando pelo crime do pai? Ambos seriam iguais, independe da concepção e, não só, ambos poderia ter o seu desenvolvimento interrompido, enquanto não tem consciência da própria existência.

Claro que haverá objeções, geralmente pela bancada “pró-vida” (não condeno, nunca é bom ser “contra-vida”), mas é necessário esclarecimento. Alguns apontam que o aborto é uma forma de “assassinato”, bem, pela legislação brasileira uma pessoa morre quando quando o seu cérebro morre; a morte cerebral, não há como voltar, depois que um cérebro morre a pessoa deixa de existir, ainda que o resto de seus órgãos viva (entenda, é diferente de coma). Até os três meses de gestação o feto não têm o sistema nervoso completo e funcional- de maneira básica, matá-lo seria como destruir o PC ou o mobile que você está usando para ler isso, o feto não têm consciência de sua existência, é apenas um conjunto amorfo de células. Claro, a legislação brasileira também pronuncia algo sobre “capacidade de formar cérebro”, porém isso é muito vago, numa comparação absurda, se aborto é assassinato, menstruação seria homicídio premeditado e masturbação um genocídio. É uma comparação absurda, deixei claro, porém, um feto não desenvolvido tem tanta consciência do mundo que o envolve e de se mesmo quanto um espermatozoide ou um óvulo.

Estou aberto a considerações e opiniões adversas (apenas traga argumentos críveis) de quem queira. Apenas que se faça daqui um lugar de debate saudável.

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Ao país que não sabe ler

Mais uma semana vai se acabando e, junto com ela, mais uma postagem minha. Numa semana onde teve a morte do Niemeyer (homem que já pensavam em usar como prova da existência dos highlanders), vários assuntos interessantes brotam. Fui instintivamente moldado a abortar o comunismo, as obras do que muitos chamam de “o maior arquiteto brasileiro” (e quem sou eu para discordar?), assim como a interferência no estado a partir de um simples civil que não tinha poderes políticos oficiais ou cargo em grandes corporações. Mas, sendo sincero, nunca li “O Capital” completo, não conheço muito mais que cinco obras projetadas por ele e nem posso comentar muito sobre suas interferências na vida social além das piadas por sua idade de três dígitos. Mas essa não foi a única novidade que me despertou interesse, a chegada da Amazon no Brasil também.

A empresa, fundada em 1994, demorou 18 anos para chegar ao Brasil (vejam, estavam esperando ela ficar de maior), e, mesmo que o Kindle ainda não tenha sido lançado, os preços atrativos já são o bastante. Tirando toda aquela história sobre atos que ferem a ética de negócios cometida pela Saraiva, há de se questionar a demora para uma empresa tão grande chegar num país com 200 milhões de habitantes. Protecionismo, políticas estranhas, desinteresse com a língua portuguesa – teorias são várias, e, como não trabalho com o negócio de livrarias, nenhuma pode ser comprovada, mas há uma verdade a ser reconhecida e distancia qualquer rede de livraria daqui: brasileiro não gosta de ler (ou, mesmo, não sabe ler “funcionalmente”). Aqui até distancio da qualidade da leitura (não irei usar o jargão de que toda a leitura é construtiva), mesmo que seja Stephenie Meyer, o ato de decifrar letras incomoda grande parte da nação – mesmo que haja 200 milhões de habitantes, grande parte não leem fluentemente o bastante para sentir prazer com a leitura, ela passa a ser irritante.

Podendo soar um tanto soberbo, mas com um certo tom de sinceridade, a Amazon demorou tanto para vir porque somos burros. Não se vende livro para quem não sabe ler; não duvido que essa tenha sido uma das principais questões abordadas nas reuniões. Ainda que agora se tenha um público bastante aberto a aventuras juvenis e, num outro lado, histórias de auto-superação e auto-ajuda, o hábito da leitura, mesmo como fonte de informação, é algo excluso na cultura brasileira. É um país acostumado a tudo embalado e mastigado para ser exibido em forma de meio áudio-visual de qualidade televisava, não é de se admirar que uma empresa especializada em linguagem escrita tenda a demorar para chegar aqui.

À insegurança da segurança pública

E voltemos à nova coluna semanal. Depois de uma semana e muito assunto matutando na minha cabeça (acredite, são muitos, mesmo – vão da não legalização do aborto até como os militares mataram o cinema brasileiro), eis que vim discursar sobre aquele ao qual prometi falar na semana passada: a insegurança pública atual. Para tal, poderia começar com uma pequena pergunta: quem aqui se sente seguro em andar pelas ruas?

Eu, como sobrevivente de sete tentativas de assalto (nunca conseguiram levar nada), estou habilitado a dizer que não. É o medo constante de ser assaltado ou, mesmo, assassinado. Mas esquecerei o “eu” nessa coluna, é uma coluna de crítica a sociedade (ou, ao menos, assim se diz), não é algo de cunho pessoal; a questão vai além do fato de tentarem me assaltar ou se tenho medo que alguém me mate, a insegurança social vai muito além de um único indivíduo. Na verdade, a questão da insegurança vai além da própria segurança, a sociedade de hoje colhe frutos plantados há muito tempo em várias áreas da atuação do estado; a maioria erros cometidos pelo governo ditatorial das décadas de 1960 e 1970 –  esses, principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo, sedes de organizações que facilmente podem emular as máfias ítalo-americanas. Tudo numa época onde a união da queda da qualidade do ensino público e a falta de distinção de presos políticos e pequenos criminosos levaram aos traficantes terem conhecimento de práticas de guerra e contatos com grandes cartéis de cocaína e armas.

Mas não foi apenas a ditadura; a falta de segurança pública e domínio das grandes organizações criminosas também nascem de políticas completamente erradas por parte do estado. O Brasil é um país onde ser traficante é mais lucrativo do que ter um trabalho legal; impostos, burocracia, educação deficiente, tudo empurra a caminho da melhor saída. É um problema cuja solução vai além de apenas matar os criminosos ou prendê-los; de nada adianta fazê-lo se sempre nasce mais. É algo que seria solucionado em um tempo próximo a duas décadas – muito mais tempo do que o mandado de políticos, isso foge das exigências imediatistas que a população brasileira foi acostumada com a adoção das cotas em universidades públicas e bolsa família.

Talvez a minha constatação final enquanto pensava sobre o assunto foi pessimista de mais (ou realista). É uma constatação onde o herói dos nossos tempos, o grandioso Capitão Nascimento nada mais é que uma sátira dessa solução imediatista e falha (assim como o Robocop – que terá um remake também dirigido pelo Padilha). Gostaria de levantar uma bandeira dando-nos a solução para parar de temer sair de casa a noite, mas não tenho nada que seja funcional e creio que ninguém o tenha. Vivemos num eterno ciclo onde, a cada volta, a situação apenas piora, não creiamos que, no ritmo que está, os nossos filhos viverão num país mais seguro.

Apenas um oi e algo mais

Olá, prazer em falar com vocês que estão me lendo agora, meu nome é Luís Eduardo e sou o novo colunista do Reino das Fábulas. Venho aqui assumir um pequeno cargo que será dividido, um cargo agradável e, ao mesmo tempo, ingrato – o de um “crítico social” (parece mais importante quando você fala, mas não creio que ajude tanto na sociedade que critica). Agradável, sim, afinal, quem não gosta de escrever o que lhe vem a cabeça? Apenas escrever, sem estar preocupado com normas mais rígidas de formatação de texto, como numa redação. Mas, ao mesmo tempo, caro leitor, ingrato, afinal, a minha função é criticar, apontar falhas, reclamar daquilo que desagrada; e, por mais que seja bom deixar registrados minhas reclamações, a menos que eu exerça a função dum cavalo com cabresto, nunca irei agradar a todos (e, mesmo se eu exercesse a função dum cavalo com cabresto, eu não iria agradar a todos).

Apresentações feitas, então vamos ao “algo mais” do título. Entro com uma certa obrigação de apontar alguma falha de nossa sociedade nesse parágrafo – o que, tecnicamente, não é difícil, se a vida em países do dito “primeiro mundo” tem vários pontos que poderiam ser apontados como falhas homéricas, imagine nós, pobres sub-primos nesse modelo socioeconômico sem uma razão palpável de existir além dele mesmo? Nos Estados Unidos se fala da poluição em grandes centros urbanos, aqui, em terras de Cabral (e Cachoeira), temos que contornar buracos literais antes de chegar no ponto da liberação exagerada de CO2. É como no filme de Jorge Furtado, “Saneamento Básico”, onde o município reserva verba para o desenvolvimento de cinema de ficção, mas não tem verba para fazer o saneamento básico do título.

A vocês que leram, não considerem isso um artigo sério da minha coluna semanal que começa por aqui. É, não só uma comum conclusão de que temos mais problemas do que gostaríamos de admitir (agora imaginem quem vive em zonas de guerra), como também um constatação de que terei muito sobre o que falar por aqui. Próxima semana eu voltarei, trazendo um novo artigo e sem as firulas de uma apresentação, falando sobre o caos urbano que eclodiu em São Paulo e a insegurança pública.

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